A absorção de CO2 está acabando com os oceanos PIN

Professora da Faculdade de Oceanografia da UERJ, Letícia Cotrim alerta para a acidificação do bioma

Por Natasha Amaral

Uma das funções dos oceanos é contribuir para o equilíbrio do clima do planeta, através da absorção de partes de gás carbônico (CO2) lançado em excesso pelo homem na atmosfera. Esse processo, no entanto, apesar de natural, tem causado desequilíbrio e contribuído para a acidificação desse bioma. Ao Integridade ESG, Letícia Cotrim, professora da Faculdade de Oceanografia da UERJ e atuante na área de Oceanografia Física, apontou que oceanos seguem sendo um dos maiores escoadores de CO2 da atmosfera, mas isso está deteriorando o próprio sistema.

O sequestro de carbono é a expressão utilizada para definir o processo de retirada de CO2, um dos gases de efeito estufa que poluem a atmosfera e provocam o aquecimento do planeta, para transformá-lo em oxigênio. Naturalmente feita pelos oceanos, essa retirada pode ocorrer de duas formas: a física – com formações de água nas profundezas do oceano –, e a biológica – em que o fitoplâncton retira o gás diretamente da água do oceano para realizar o processo da fotossíntese.

“Quando a gente fala sobre acidificação do oceano, é justamente essa mudança química que já aconteceu porque o oceano vem, cada vez mais, todos os anos, absorvendo esse excesso de CO2. Em contato com a água, o gás faz uma reação e diminui o pH dela. Por um lado, é um serviço que o oceano presta, mas o preço é a acidificação. A mudança que já ocorreu no pH médio desse bioma não é reversível e afeta diretamente a vida marinha”, alertou Cotrim.

Vale ressaltar que diminuir a emissão de gases de efeito estufa (GEE) tornou-se uma obrigação global, a partir do compromisso firmado por países como o Brasil, durante a 3ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, realizada em Kyoto, Japão, em 1997. O Protocolo de Kyoto, como ficou conhecido, foi o primeiro tratado internacional para controle da emissão de gases de efeito estufa na atmosfera e estimulação à criação de formas de desenvolvimento sustentável para preservar o meio ambiente.

Letícia é Oceanógrafa pela Uerj, mestra em Geoquímica pela UFF (1996) e doutora em Oceanologia pela Université de Perpignan (França, 2000). Ela também é coautora do Sexto Relatório de Avaliação do Clima do IPCC (AR6 – 2021) e colíder do Grupo Brasileiro de Pesquisa em Acidificação dos Oceanos.

O excesso de CO2 nos oceanos

Mais de um terço do gás carbônico emitido pela ação humana – em atividades como geração de energia, transporte e desmatamento –, foi absorvido pelos oceanos nos últimos anos. “Todo ano vão para a atmosfera mais ou menos 40 bilhões de toneladas de CO2 que o próprio homem produz. Esse gás vai para a atmosfera, aumenta o efeito estufa e a temperatura aumenta junto. As plantas terrestres absorvem cerca de um terço desse gás e mais ou menos 25% são absorvidos pelos oceanos. O resto vai acumulando na atmosfera”, pontua Cotrim.

Apesar de diminuir o aquecimento global, esse fenômeno altera a química da água marinha. Na água, o CO2 reage e forma ácido carbônico, resultando na acidificação gradual do bioma. “Esse processo acontece naturalmente, o problema é que cada vez tem mais CO2 na atmosfera e o oceano vai absorvendo um pouco mais. Isso já alterou a química do oceano. Então, não é bom contarmos com ele como um sumidouro. Por um lado, é um serviço que o oceano presta, mas o preço é a acidificação, que já não é mais reversível”, alertou.

Para Letícia, apesar da acidificação ser um problema real e sem volta, a política de Net zero pode ser uma solução a longo prazo. “Se apertasse um botão mágico e parasse de emitir CO2, o pH não voltaria ao que era antes das grandes emissões, no final do século XIX. O que é possível ser feito, se a gente conseguir chegar nessa coisa de zerar as emissões líquidas o mais rápido possível, até 2030 de preferência, é a estabilização desse pH. Os oceanos seguem sendo um dos maiores escoadores de CO2 na atmosfera, mas isso está deteriorando o próprio bioma”.

“A capacidade de os oceanos absorverem CO2 é como uma colcha de retalhos. Se a gente pegar os oceanos do mundo inteiro, cada parte vai responder de um jeito, porque tem lugares mais quentes e outros mais frios. Onde mais entra CO2 é nas altas latitudes. Há outro jeito de o oceano capturar CO2, muito variável de região para a região, que é onde tem muito fitoplâncton. Ele é supereficiente porque pega o CO2 que já está na água, dissolvido, e faz a reação, a fotossíntese. Esses organismos que fazem fotossíntese acabam retirando muito CO2 da água e ajudando na super absorção de gás carbônico”, explicou.

Função natural ou emissor em potencial?

Questionada se os oceanos poderiam se tornar grandes emissores de carbono, a especialista reafirmou o cenário negativo, mas mostrou uma tendência de estabilização. “A absorção de CO2 sempre aconteceu, antes mesmo de o homem existir. Então, ser sumidouro é uma função natural do oceano. Se a gente não tivesse o oceano como ele é hoje, a gente não tinha do clima do planeta que temos. Além de gás carbônico, ele distribui calor e humidade. Como a gente sabe que gases podem se dissolver na água, a tendência é que, ao longo do tempo, se o sistema for deixado certinho, entrará em equilíbrio”.

“No futuro, se não fizermos nada, a eficiência desse sumidouro vai ficar cada vez menor e isso é muito grave. Outro problema que atrapalha a capacidade de absorver o CO2, é que o oceano está mais quente, assim como o ar está mais quente, e a temperatura média do planeta mais alta. A água mais quente dissolve menos gás. Então, são duas coisas que vão contra esse “serviço”, finalizou. 

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