África, consumo e o pós-pandemia PIN

A pandemia de Covid-19 já deixa o triste recorde de 1 milhão de vidas interrompidas ao redor do mundo. É preciso fazer um grande esforço para tentar manter algum resquício de otimismo no futuro. Alguns especialistas têm essa capacidade. E eles enxergam que, com a mudança nas dinâmicas sociais e produtivas advindas das medidas de isolamento social impostas à humanidade, pode-se criar espaço para o novo. Os hábitos de consumo mudaram. E Isso impactará, em menor ou maior grau, o capitalismo. Um termo que até então figurava apenas em relatórios de tendências chegou à vida real: o lowsumerism.

Alguns desses hábitos adquiridos durante a pandemia perdurarão. No report “O consumidor do futuro 2021”, Andrea Bell, diretora da WGSN Insight, diz que o fim do excesso é uma das macrotendências para o ano que vem: “À medida que o consumo responsável chega ao mainstream e o interesse por produtos e processos sustentáveis dispara, a redução da quantidade de matéria-prima usada nas cadeias de suprimento será objeto de atenção. Até 2050, o uso de recursos materiais em todo o mundo deve mais do que dobrar, e nos países desenvolvidos – que já consomem atualmente dez vezes mais por pessoa do que os países emergentes – precisaremos de 1,7 planeta Terra para manter os níveis de consumo atuais.” Essa mudança de mentalidade do cidadão abre espaço no mercado para marcas que criarem novas formas e maneiras de comprar, encorajando o comércio direto.

A maioria das empresas não estava preparada para isso. No entanto, algumas sofreram mais que outras. É o caso da indústria da moda. Com os consumidores obrigados a ficar em casa, a demanda por novas roupas evaporou-se.

De uma hora para outra, milhares de pessoas deixaram de comprar peças por meses. E descobriram que podem viver bem sem elas. A cadeia desejo-impulso-compra, que regia o modus operandi capitalista até então, se rompeu. Com isso, abala-se também uma indústria responsável por cerca de 10% de todas as emissões de gases de efeito estufa do planeta, a qual consome uma quantidade incrível de recursos, incluindo água e energia, embora a maioria das pessoas não se atente para esse alto custo “indireto”.

Poderia a pandemia do coronavírus ter efeito positivo para o planeta? Bem, a Covid-19 vem sendo apontada por especialistas em moda sustentável como forte o bastante para enterrar a fast fashion, além de mudar o eixo de produção da cadeia de fornecedores. Sai de cena a Ásia, desponta a África.

Polo têxtil do mundo

No século XX, a China concentrou boa parte da produção têxtil global. Mas, à medida que as varejistas tentavam reduzir os gastos com salários, migraram para o Sul e Sudeste asiático. Nas últimas décadas, Bangladesh, Vietnã e Sri Lanka se tornaram alfaiates do mundo. Esses países passaram a centralizar a produção de boa parte das roupas, acessórios e calçados do mundo rico.

Um ditado popular diz que não se faz omelete sem quebrar ovos. Pois esta que pode ser uma mudança no eixo de produção da moda tem provocado uma quebradeira entre empreendedores asiáticos. Segundo a Bloomberg, as fábricas de roupas em Bangladesh, um centro de produção de roupas, viram US$ 1,5 bilhão em pedidos cancelados. Enquanto isso, as vendas mundiais na indústria de moda e luxo despencaram até 70% de março a abril.

Desde a eclosão da Covid-19, a cadeia de fornecedores sofre com o impacto devastador do cancelamento de pedidos de marcas, incluindo pedidos já em produção, e alteração dos termos de pagamento, com muitas marcas invocando a cláusula de força maior para liberá-los de sua responsabilidade contratual de pagar fornecedores.

A pandemia jogou luz em velhos problemas sistêmicos da indústria. Os riscos de se operar globalmente perseguindo uma produção cada vez mais barata levou fábricas, localizadas majoritariamente na Ásia, a adotarem margens de lucro incrivelmente apertadas. Ao longo de décadas, os salários e os direitos dos trabalhadores foram espremidos. São muitos os relatos de condições análogas à escravidão Com a crise, milhões de trabalhadores que fazem roupas para algumas das empresas mais lucrativas do mundo perderam seus empregos ou foram temporariamente suspensos, sem receber o pagamento a que têm direito por lei, e a grande maioria não tem economias para recorrer e nenhuma proteção social. A pobreza e a fome podem representar uma ameaça maior às suas vidas do que o coronavírus.

Saberes ancestrais

Com valor de mercado global na casa de US$ 2,5 trilhões por ano, a indústria da moda foi para a lona com a pandemia. Para se reerguer e continuar na disputa, terá de adotar nova estratégia. Sai de cena o fast fashion, e a moda “feita sob encomenda” ganha as passarelas. Esta última é agora recomendada por ambientalistas e analistas de negócios como o futuro da indústria têxtil. O novo normal. Mas, no continente africano isso não é novidade. Trata-se de mais uma prática ancestral.

Mais do que intuitiva, a sustentabilidade em muitos dos países africanos pode ser questão de necessidade. Quase sobrevivência. É o caso da indústria da moda. A maioria da população não tem acesso aos recursos abundantes disponíveis para moradores de nações mais ricas. Acabam recorrendo a práticas tradicionais que, mesmo sem saberem, são alinhadas aos métodos hoje reconhecidos como sustentáveis.

A herança cultural do continente – como a fabricação de tecido de casca de árvore em Uganda, os tecidos da Nigéria e Gana, bem como a tradicional tecelagem berbere no norte da África – é apontada por pesquisadores de tendência como a nova fronteira da moda pós-Covid-19. O tecido de casca de árvore, em particular, tem recebido atenção renovada. Muito usado por curandeiros tradicionais e como uma mortalha, é a matéria-prima ideal para esses novos tempos de moda sob medida.

O pano cor de uísque é feito a partir da trituração da casca interna fibrosa da árvore Ficus natalensis, também conhecida como figueira-natal ou mutuba. É um processo trabalhoso, o que pode explicar como a produção de tecidos de casca de árvore começou a declinar após a introdução do algodão como alternativa têxtil pelos comerciantes árabes no século XIX. No entanto, ele já foi amplamente usado e é mais parecido com couro em termos de durabilidade do que outros têxteis à base de plantas.

Pano real

O tecido de casca de árvore está mais intimamente associado ao povo de dois dos reinos tradicionais de Uganda: Tooro e Buganda. O Reino de Tooro, em particular, está buscando desenvolver sua indústria de tecidos de casca de árvore. A rainha-mãe, HRH Best Kemigisa, defende o plantio de árvores para a produção de tecido. A ideia real é não só criar empregos, mas também mitigar os impactos das mudanças climáticas.

Outro exemplo desse novo normal da moda vem do Quênia: a estilista somali Nimco Adam, antes conhecida como a rainha do Tie Dye, deixou de se dedicar a mergulhar tecidos em tonéis de tinturas químicas para focar em sustentabilidade.

Desde então, cria tecidos a partir de métodos tradicionais africanos, usando como matéria-prima cânhamo, bambu e até casca de árvore. Também saíram de cena os tonalizantes químicos e entraram os corantes naturais, extraídos de raízes, como açafrão. Colocar a natureza no centro do processo criativo posicionou Adam na vanguarda do movimento da moda sustentável.

Na Nigéria, a marca Nkwo é referência por conjugar sustentabilidade e moda. A estilista Nkwo Onwuka usa o upcycling como resposta natural ao excesso de roupas de segunda mão despejadas nos mercados. A partir das pilhas de jeans produzidos em massa que chegaram do exterior, ela criou seu próprio tecido – dakala –, a partir de técnicas tradicionais como contas manuais com inovações para produzir coleções de cápsulas exclusivas.

A reconstrução de uma indústria da moda mais sustentável do outro lado da crise exigirá que governos, marcas, varejistas e cidadãos ajam juntos. Muitas marcas de moda sustentável são pequenas empresas, com poucos recursos e dificuldade de acesso a financiamento. Mas a demanda por uma moda ética é crescente. Marcas e varejistas também sabem que precisam fazer mais para proteger os trabalhadores mais vulneráveis em suas cadeias de abastecimento. E também o planeta. Isso é estar alinhado ao espírito do nosso tempo. A África já caminha nessa direção.

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