Amazônia e a fronteira do agronegócio PIN

Enquanto as imagens do Pantanal queimando – outro bioma importante para o país e para o planeta – correm o mundo, oito países europeus enviaram uma carta aberta ao vice-presidente brasileiro, general Hamilton Mourão, para protestar contra a política ambiental brasileira.

As nações signatárias – Alemanha, Reino Unido, França, Itália, Dinamarca, Noruega, Países Baixos e Bélgica – participam da declaração de Amsterdã, uma parceria entre nações para promover sustentabilidade e cadeias de produção de commodities que não cause a destruição de florestas.

Na carta, os europeus destacam que o desmatamento cresce em ritmo alarmante no Brasil e se dizem estar “profundamente preocupados” com os efeitos dessa destruição para o desenvolvimento sustentável do país.

“Durante muito tempo o Brasil liderou a redução do desmatamento na Amazônia através do estabelecimento de instituições científicas independentes que garantem monitoramento rigoroso e transparente, de agências de controle competentes e do reconhecimento de territórios indígenas. Nos últimos anos, no entanto, o desmatamento tem crescido em ritmo alarmante, como foi documentado pelo INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais)”, dizem em trecho da carta.

Questionado pela imprensa brasileira, o vice-presidente, Hamilton Mourão, afirmou ser preciso, de fato, ampliar a atuação do governo na região amazônica e, principalmente, recuperar a capacidade operacional do Ibama, do Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio) e da Funai. A distância entre o discurso e a prática se mostrou evidente nas semanas seguintes.

Poker face à brasileira

Pressionado a reduzir o desmatamento e proteger o meio ambiente, o governo brasileiro parece querer dobrar a aposta. Em 28 de setembro, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que preside o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), aprovou a extinção de duas resoluções que delimitavam as áreas de proteção permanente (APPs) de manguezais e de restingas do litoral brasileiro. A revogação dessas regras abre espaço para especulação imobiliária nas faixas de vegetação das praias e ocupação
de áreas de mangues para produção de camarão.

A ideia, dita por Salles na fatídica reunião ministerial de 22 de abril, era aproveitar a pandemia para, em suas palavras, “passar a boiada”. E a boiada está passando com agilidade. Na mesma reunião, o Conama também revogou uma resolução que exigia o licenciamento ambiental para projetos de irrigação. E ainda instituiu uma nova regra, permitindo que materiais de embalagens e restos de agrotóxicos possam ser queimados em fornos industriais para serem transformados em cimento, substituindo as regras que determinavam o devido descarte ambiental desse material.

Agronegócio reage

A solução não parece que virá da caneta Bic do presidente Jair Bolsonaro. E, em meio às ameaças de retaliação europeia que têm potencial para derrubar suas projeções financeiras num ano difícil, já marcado pelos efeitos da pandemia, o agronegócio decidiu reagir. Numa dessas ironias do destino, o futuro dessa indústria está amarrado ao próprio destino da floresta em si.

Autor de “Alimentando o Mundo: O Surgimento da Moderna Economia Agrícola no Brasil”, o historiador Herbert Klein acredita que a destruição da Amazônia terá grave impacto nas exportações brasileiras. Para Klein, as ações antiambiente do governo são hoje as maiores ameaças ao escoamento da produção agrícola do país. “Se não se controlar a destruição da Amazônia, o país terá uma perda no mercado europeu, que não quer apoiar o livre comércio com o Brasil enquanto esse sistema de destruição seguir”, afirmou Klein numa live.

Empresa amiga da floresta

A brasileira JBS, segunda maior indústria de alimentos do mundo, entendeu o tamanho do problema e partiu para a ação. Em setembro, a empresa lançou o programa Juntos Pela Amazônia. Trata-se de um conjunto de iniciativas com visão de longo prazo que
visam aumentar a conservação e o desenvolvimento do bioma, engajando o setor e propondo ações para além da cadeia de valor da companhia.

O programa integra a prioridade Mudanças Climáticas, do plano de metas globais de sustentabilidade da companhia, apresentado em 2019. Os pilares fundamentais do Juntos Pela Amazônia são: (i) desenvolvimento da cadeia de valor; (ii) conservação e recuperação de florestas; (iii) apoio às comunidades; e (iv) desenvolvimento científico e tecnológico.

O primeiro pilar é composto por três principais iniciativas. A primeira delas é a Plataforma Verde JBS, uma plataforma blockchain, que vai permitir que a companhia inclua em sua base de monitoramento os fornecedores de seus fornecedores de bovinos até 2025.

A segunda iniciativa é o compartilhamento da tecnologia de monitoramento de fornecedores da empresa e da política de compra responsável com sua cadeia de valor, o que inclui toda a indústria de alimentos, desde pecuaristas, agricultores a instituições financeiras e do agronegócio. A terceira iniciativa será o apoio ambiental, agropecuário e jurídico aos fornecedores.

Os outros três pilares serão alcançados por meio da atuação do Fundo JBS Pela Amazônia para financiar ações e projetos para o desenvolvimento sustentável no bioma. A companhia vai aportar R$ 250 milhões, nos primeiros cinco anos, podendo chegar a
R$ 500 milhões até 2030.

“Estamos reafirmando publicamente o nosso compromisso com a sustentabilidade da Amazônia. Esperamos promover um avanço em escala não apenas em direção ao combate ao desmatamento, mas também à promoção da bioeconomia, agricultura sustentável e desenvolvimento social”, afirma Gilberto Tomazoni, CEO Global da JBS.

Desenvolvimento da cadeia de valor

Atualmente, a Política de Compra Responsável de Matéria-Prima da JBS já monitora diariamente 100% dos fornecedores de bovinos da companhia, segundo critérios rígidos de sustentabilidade, com tolerância zero para o desmatamento, invasão de áreas protegidas, como terras indígenas ou unidades de conservação ambiental, trabalho análogo à escravidão, ou uso de áreas embargadas pelo Ibama. Essa análise é feita online e diariamente, e abrange mais de 50 mil fazendas fornecedoras.

“Ao longo da última década fizemos investimentos significativos para viabilizar o que hoje é um dos maiores sistemas privados de monitoramento de fornecedores do mundo. Também nos engajamos em iniciativas setoriais – junto a organizações não governamentais e Ministério Público Federal – em estados da Amazônia Legal e programas educativos de melhoramento de manejo da terra junto aos nossos fornecedores”, afirma Wesley Batista Filho, presidente da JBS América do Sul e da Seara.

A Plataforma Verde JBS é uma iniciativa inédita que vai cruzar informações dos fornecedores da companhia com dados de trânsito de animais. A nova tecnologia permitirá estender aos demais elos da cadeia produtiva o monitoramento socioambiental que já é feito nos fornecedores da empresa na Amazônia. A iniciativa usará tecnologia blockchain justamente para dar confidencialidade e segurança no acesso às informações e transparência nas análises dos fornecedores. O trabalho será auditado, e seus resultados reportados no relatório anual e de sustentabilidade.

A companhia fará campanhas de engajamento com fornecedores e entidades para que até o final de 2025, os fornecedores de seus fornecedores estejam na Plataforma Verde JBS. “Estamos muito confiantes na participação de todo o setor. Acreditamos que com o engajamento de todos conseguiremos provocar mudanças significativas em busca de uma produção cada vez mais sustentável”, firma Renato Costa, presidente da Friboi.

Adicionalmente a companhia também vai disponibilizar assessoramento jurídico, ambiental e agropecuário para auxiliar produtores na melhoria do manejo de suas propriedades. A JBS vai ampliar suas ações educativas em sustentabilidade para sua cadeia de fornecimento agropecuário e aumentar os investimentos no desenvolvimento de plataformas digitais para regularização ambiental, como já faz nos estados de Mato Grosso e Pará.

Como parte do Programa Juntos Pela Amazônia, a companhia também anuncia o compartilhamento de sua tecnologia de monitoramento de fornecedores com pecuaristas, instituições financeiras e outras empresas que desejarem adotar critérios socioambientais na relação com suas cadeias de valor.

O monitoramento feito pela JBS na Amazônia já permitiu o bloqueio comercial de fornecedores em situação de não conformidade com as políticas de compra da empresa. Agora, a companhia anuncia sua disposição de compartilhar essa tecnologia de monitoramento com instituições financeiras e outras empresas que quiserem aplicá-lo.

Fundo JBS pela Amazônia

A empresa anuncia também a constituição do Fundo JBS pela Amazônia, dedicado a financiar iniciativas e projetos para ampliar a conservação da floresta e o desenvolvimento sustentável das comunidades que nela vivem, com aporte de R$ 250 milhões nos primeiros cinco anos.

A JBS convidará seus stakeholders a contribuírem para o Fundo, e se compromete a igualar sua contribuição às doações de terceiros na mesma proporção. A meta é levar os recursos do fundo a um total de R$ 1 bilhão até 2030.

Serão apoiados projetos em três frentes: conservação e restauração da floresta; desenvolvimento socioeconômico das comunidades e desenvolvimento científico e tecnológico.

O Fundo será presidido por Joanita Maestri Karoleski, ex-CEO da Seara, com o apoio de um Conselho de Administração, um Conselho Fiscal, um Conselho Consultivo e um Comitê Técnico. O Comitê Técnico e o Conselho Consultivo auxiliarão na escolha de projetos que receberão aportes do Fundo, que será auditado pela KPMG. Todo o processo será reportado e os resultados publicados no site.

Para Joanita Maestri Karoleski, presidente do Fundo, conter o desmatamento ilegal é um desafio central para a defesa da Amazônia. Ela defende que esse problema só será combatido efetivamente por um olhar voltado à qualidade de vida e à geração de
renda para a população da região, indígenas, ribeirinhos e quilombolas. “Acreditamos em uma Amazônia sustentável, pois sabemos que preservação ambiental e desenvolvimento socioeconômico são indissociáveis”, ressalta a executiva. Nós também.

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