Brasil 4.0 PIN

O futuro das nações é digital. No caso do Brasil, são muitos desafios a ser vencidos. Há um longo caminho a ser percorrido para que o país tenha uma posição competitiva frente às grandes nações. Entre as tarefas que o Brasil tem para realizar estão desde reduzir a incerteza tributária para novos modelos de negócios ativados digitalmente até fortalecer os mecanismos de governança e coordenação das políticas da Indústria 4.0, passando por um incremento na segurança cibernética.

A OCDE recomenda que o país implemente uma variedade de medidas complementares para entrar na rota do progresso 4.0. Para a entidade, as tecnologias digitais hoje têm a função de fomentar a inovação e a produtividade em empresas. Nesse cenário, as redes de banda larga de alta velocidade fornecem às pessoas e às empresas acesso aos serviços governamentais e mercados internacionais, além de poder ajudar a reduzir desigualdades. A digitalização pode ajudar a reduzir encargos regulatórios e a informalidade. Também pode aumentar a eficiência dos gastos públicos, oferecendo, portanto, mais recursos para políticas. Recursos para a educação on-line oferecem novas ferramentas de ensino e fornecem novas oportunidades de formação, além de contribuir para a melhoria das qualificações dos trabalhadores e pessoas em geral.

Contudo, a transformação digital pode acentuar desigualdades existentes, principalmente entre pessoas muito qualificadas e as pouco qualificadas, empresas grandes e pequenas, bem como entre regiões urbanas e rurais. As políticas são essenciais para garantir que os potenciais benefícios da transformação digital sejam compartilhados em toda a economia e com a sociedade.

A Internet das Coisas (Internet of Things, IoT), em especial, tem um potencial significativo para inovações de processos e ganhos de eficiência. Sensores modernos possibilitam a coleta de grandes quantidades de dados, que podem ser processados por dispositivos inteligentes e introduzidos em decisões de produção. Os conjuntos de big data resultantes criam ainda mais benefícios, incluindo a integração de novos serviços e prestadores de serviços na cadeia de valor.

Apesar do amplo acesso à Internet, as empresas brasileiras ficam para trás em relação às empresas nos países da OCDE, no que diz respeito ao uso da Internet e de tecnologias digitais, em grande parte como resultado da baixa adesão por parte das pequenas e médias empresas (PMEs). A manufatura avançada (a combinação de tecnologias digitais, robótica, IoT e análise de dados para melhorar os processos de produção e a qualidade do produto) ainda está em uma etapa inicial.

 Em junho de 2019, o Brasil lançou o Plano Nacional de IoT, com o objetivo de “promover a implementação da IoT como um instrumento de desenvolvimento sustentável para a sociedade brasileira, capaz de aumentar a competitividade, fortalecer as cadeias de produção nacionais e promover uma qualidade de vida melhor”. O plano especifica 75 iniciativas, organizadas ao longo de quatro eixos temáticos transversais. O agronegócio e a manufatura estão entre os setores prioritários do plano, com vistas à melhoria de competências para um mundo digital.

O Brasil fez um progresso substancial na facilitação do acesso à educação nas últimas décadas. No entanto, apesar do aumento nos gastos com educação e do amplo de acesso aos ensinos fundamental e médio de forma gratuita, o nível de escolaridade continua baixo. Mais de 50% dos brasileiros não se formaram no ensino médio e 17% não concluíram o ensino fundamental. Esses números estão bem acima da média da OCDE que é de 2%. As matrículas em cursos de formação profissional e de graduação técnica são baixas, com apenas 3,8% dos alunos do ensino médio optando por cursos técnicos. O nosso baixo desempenho no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Programme for International Student Assessment, PISA) da OCDE sugere uma baixa qualidade de ensino, bem como grandes disparidades nos resultados, dependendo do contexto socioeconômico dos alunos.

Tecnologia, aliada da sustentabilidade

Em todo o mundo, as atividades ligadas à agricultura, à silvicultura e ao uso da terra são responsáveis por um quarto do total de emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE). Por sua vez, conseguia-se reduzir as emissões gerais provindas da agricultura, silvicultura e uso da terra nos últimos anos, atingindo uma produção mais ecologicamente correta, além de um crescimento significativo de produtividade graças ao combate ao desmatamento.

Infelizmente o cenário mudou. Dados recentes do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) sugerem que o desmatamento de parte da floresta amazônica brasileira está aumentando novamente. Em especial, o desmatamento entre agosto de 2018 e julho de 2019 foi cerca de 30% maior do que no período anterior.

Estimular o desenvolvimento de um setor agroalimentar competitivo, sustentável e resiliente é uma prioridade alta nos países da OCDE. Uma vez que, recentemente, as emissões vêm aumentando em vez de diminuir, o Brasil terá que intensificar a aplicação de políticas para cumprir as promessas feitas no Acordo de Paris para 2025, de reduzir as emissões de GEE em cerca de um terço das emissões de 2018.

Embora o combate ao desmatamento ilegal continue sendo uma prioridade a esse respeito, as tecnologias digitais também podem ser um instrumento poderoso, tornando a agricultura mais eficiente (por exemplo, combinando a análise de dados com as máquinas de agricultura de precisão) e ajudando os responsáveis por elaborar as políticas a aumentar a eficiência e a expandir o leque de opções para a escolha de políticas.

Uma das áreas em que o Brasil tem um grande potencial para reduzir os GEEs, além do desmatamento da floresta tropical, é na produção de carne bovina, uma das principais fontes de emissão na América Latina e Caribe. A OCDE alerta para a alta, no Brasil, das emissões diretas da agricultura. Segundo a entidade, isso se deve quase que exclusivamente devido à expansão de rebanhos de gado bovino. A Organização recomenda que o país considere incentivar práticas sustentáveis para a criação de gado e também cultivo de lavouras. Uma das medidas sugeridas é a tributação pigouviana (que leva em conta os efeitos externos da pecuária no clima global).

Os sistemas de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) foram propostos como uma maneira promissora para o Brasil reduzir as emissões de GEE e superar os efeitos de décadas de monocultura, incluindo erosão do solo, perda de fertilidade, assoreamento dos cursos d’água e poluição da água e do solo. Essa estratégia propõe a integração de diferentes sistemas de atividade agrícola, incluindo a pecuária, dentro de uma mesma área (por meio de cultivo consorciado, rotação de culturas ou sucessão) podendo, assim, melhorar os ciclos biológicos de plantas e animais, insumos e resíduos, reduzindo a pressão ambiental e os GEEs, e possibilitando o uso da terra durante o ano todo, além de aumentar a produtividade.

As taxas de adoção das práticas de agricultura com soluções ambientais inteligentes têm sido de moderadas a baixas em muitos países da América Latina, especialmente entre os pequenos agricultores familiares. Entre as barreiras para a adoção estão a falta de compreensão das tecnologias oferecidas, a falta de habilidade na gestão de cultivo, treinamento e assistência técnica insuficientes para os agricultores, assim como os altos custos iniciais para a adoção da tecnologia.

A OCDE reitera que a transformação digital é crucial para reduzir muitas dessas limitações de forma significativa, ao fomentar técnicas de agricultura com soluções ambientais inteligentes. O Brasil poderia também considerar um apoio mais direcionado para a inovação na tecnologia de pecuária de precisão, uma vez que essa área de atividades agrícolas tem um alto potencial de crescimento e já está atraindo bastante atenção internacional. Prova disso foi a decisão da Siemens de instalar em São Paulo seu primeiro centro de inovação de tecnologia voltado inteiramente para a pecuária. De acordo com a Siemens, o denominado Centro de Competências de Carnes tem como objetivo tornar-se um núcleo global para novos serviços de tecnologia destinados a melhorar os processos de produção de carne, com usos inovadores de monitoramento e automação.

A também alemã Bosch transformou uma grande fazenda brasileira em Goiás no primeiro projeto de agricultura conectada, contando com o sistema de pecuária de precisão da empresa, que utiliza a identificação de radiofrequência e a IoT para ajudar os agricultores a administrar grandes rebanhos e a manter o monitoramento dos ganhos de peso dos animais.

Já o sucesso do BovControl, uma startup brasileira fundada em São Paulo em 2013, demonstra que os inovadores brasileiros não precisam se esconder atrás de grandes empresas internacionais. A tecnologia da empresa agora é aplicada em fazendas de todo o mundo, criando uma “Internet das vacas” por meio de seu sistema de gestão de gado em nuvem, que ajuda os agricultores a monitorar seus rebanhos. Em 2017, a empresa entrou para a lista da Forbes como uma das 25 startups AgroTech mais inovadoras do mundo. O caminho é longo, mas há uma luz forte no fim do túnel!

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