Florestas recuperadas, uma revolução silenciosa PIN

Kelly Nascimento, editora de Bioma

Estudo da Embrapa joga luz sobre a função da floresta no sequestro de carbono

As florestas tropicais são fundamentais para o equilíbrio no planeta.  Elas protegem a biodiversidade globalmente única, fornecem recursos vitais para a população local e ajudam a reduzir as mudanças climáticas ao armazenar carbono. As chamadas florestas recuperadas são um trunfo no combate ao aquecimento global.

Os biomas chamados de florestas secundárias são resultado da ação humana sobre as florestas primárias. São áreas comuns na América Latina e têm como característica a retirada da vegetação primária seguida de posterior abandono. Com o tempo, a floresta vai se recuperando e, progressivamente, o ecossistema se reconstrói. A biodiversidade se reequilibra e traz consigo todos os serviços ambientais associados.

Mas qual a verdadeira importância dessas florestas recuperadas? Um estudo da Embrapa joga luz sobre os valiosos mecanismos de sequestro de carbono da Floresta Amazônica. O trabalho monitorou as emissões durante um ano e levantou o estoque de carbono na parte aérea das árvores, nas raízes, no solo e na serrapilheira e galhos caídos no chão em uma área de floresta, com histórico de extração de madeiras e de queimadas, mas que se encontra intocada há, pelo menos, doze anos.

Uma das conclusões é a comprovação do papel que as matas secundárias possuem de retirar carbono da atmosfera e estocá-lo em forma de biomassa vegetal e no solo. “As matas secundárias ou áreas recuperadas são importantes fontes não só para essa questão de assimilação de carbono, mas também para outros serviços ambientais, como abrigo para polinizadores, regulação microclimática, estabilização do solo, conservação hídrica e preservação de biodiversidade”, explica o pesquisador Alexandre Nascimento, um dos autores da pesquisa.

O estudo foi desenvolvido na fazenda experimental da Embrapa Agrossilvipastoril na cidade de Sinop (MT), situada no sul da Amazônia. O resultado da caracterização dessa área é semelhante ao obtido em outros locais da Amazônia, em latitude semelhante. De acordo com Nascimento, os dados obtidos servem não só como referência para acompanhamento do mesmo local ao longo do tempo, como também de comparativo com sistemas produtivos agrícolas e pecuários na mesma região. O trabalho também contou com a participação da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).

Produção sustentável

As descobertas podem servir para tornar a produção do agronegócio mais sustentável. “Quando avaliamos estoque de carbono e emissão de gases em um sistema agropecuário, sempre comparamos com um fragmento florestal, que é a referência de um sistema em maior equilíbrio. Sendo assim, um sistema agrícola cujo comportamento mais se aproxima da floresta, seria um sistema mais sustentável”, detalha Nascimento.

A pesquisa da Embrapa também esmiuçou detalhes do mecanismo que possibilita que o chão da floresta capture os gases causadores do aquecimento global. As emissões acumuladas de gases de efeito estufa do solo no fragmento florestal foram de 13 toneladas de carbono equivalente por hectare em um ano. Já a soma dos estoques de carbono nos compartimentos da floresta, convertidos em CO2, foram de aproximadamente 720 ton CO2.

Desse carbono estocado, 50% encontram-se no solo, 41% na parte aérea das árvores, 4,2% nas raízes, 0,6% em galhos e troncos mortos e 2,7% na serrapilheira. Pesquisas realizadas em outros locais, contudo, demonstram que somente a parte aérea das plantas têm capacidade de mitigar entre 4 e 11 toneladas de CO2 equivalente por hectare em um ano. Esses estoques são resultado de anos de atividades biológicas daquele ecossistema.

Ingo Isernhagen, pesquisador de restauração ecológica, contextualiza os resultados, lembrando que  mecanismos como as Áreas de Preservação Permanente (APP)  e de Reserva Legal (RL) têm um papel que extrapola a mitigação das emissões geradas pelo uso da terra. Daí a importância da conservação de matas com manejo florestal.

“As matas secundárias ou áreas recuperadas são importantes fontes não só para essa questão de assimilação de carbono, mas também para outros serviços ambientais, como abrigo para polinizadores, regulação microclimática, estabilização do solo, conservação hídrica e preservação de biodiversidade”, elenca o pesquisador.

Contextualização

Estudos que buscam medir o potencial de mitigação de sistemas florestais frequentemente não encontram áreas de referência da região para comparação de resultados, especialmente na transição dos biomas Cerrado e Amazônia e da Amazônia Meridional.

Avaliações do papel de florestas secundárias tornam-se indispensáveis para a validação de sistemas com potencial de mitigação das emissões de GEE. Por isso, pesquisadores se dedicaram à missão de quantificar os estoques de carbono (CO2 ) nos diversos compartimentos e as emissões de GEE do solo de fragmento florestal na borda sul da Floresta Amazônica, uma região reconhecida pela expansão de áreas agrícolas, com taxas ainda elevadas de redução da cobertura da vegetação nativa.

De acordo com os pesquisadores responsáveis pelo trabalho, os resultados da pesquisa reforçam a importância de iniciativas de redução das emissões por desmatamento e conservação florestal (REDD+ − Redução das Emissões por Desmatamento e Degradação

florestal) contribuindo para que o Brasil cumpra com as metas voluntárias assumidas em acordos internacionais de redução das emissões de gases causadores de efeito estufa.

A quantificação dos estoques de carbono nos diversos compartimentos da floresta, bem como das emissões de gases de efeito estufa (GEE) do solo, contribui para o entendimento do papel das florestas secundárias na dinâmica de carbono  e nitrogênio, elementos em constante troca entre a floresta e a atmosfera.

O estudo “Estoques de carbono e emissões de gases de efeito estufa de floresta secundária na transição Amazônia–Cerrado” está disponível para download.

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