Mercado novinho em folha PIN

O futuro é verde. A nova fronteira agrícola, também. E disruptiva. É o que apostam os empreendedores do mercado conhecido como cannabusiness. Há possibilidade de desenvolvimento de uma cadeia produtiva inclusiva, que remunere desde o pequeno produtor rural até investidores de fundos de ações de empresas que têm a planta como insumo em suas cadeias produtivas, passando pela criação de postos de trabalho em pesquisa e desenvolvimento de produtos, bem como sua produção em nível industrial.

A cada ano que passa, a chamada indústria da cannabis amadurece e avança algumas casas rumo à construção de um mercado legal. O crescimento é calcado não apenas no tamanho do mercado, mas também nos métodos de produção e na conscientização dos consumidores em potencial. A desmistificação em torno da planta talvez ainda seja a maior luta a ser travada.

A indústria da cannabis luta pela legalização há décadas. Em 2020 avanços importantes foram conquistados. A mais relevante veio em dezembro, direto da Organização das Nações Unidas. Em decisão histórica, a ONU excluiu a cannabis da lista mais restritiva de drogas. Assim, a planta deixa de ser associada a entorpecentes como a cocaína e a heroína. A medida abre caminho imediato para o aceleramento do mercado global de cannabis medicinal. Especialistas e empreendedores desse mercado estimam que a decisão colocará produtos de saúde que tenham a planta como matéria-prima numa via expressa, agora que a Comissão de Narcóticos reconheceu sua utilidade médica.

O valor simbólico da resolução da ONU é intangível. O valor de negócio, não. O mercado global de cannabis movimentou no ano passado US$ 18 bilhões. Segundo o levantamento do Banco de Montreal, ele chegará a US$ 194 bilhões até 2026. Para a instituição financeira canadense, poucos negócios oferecem tantas oportunidades no mundo atual do que a indústria da cannabis.

O Canadá está na vanguarda quando o assunto é cannabis. O país foi a primeira grande economia a permitir o uso recreativo da maconha, em outubro de 2018. A chamada “corrida verde” criou uma bolha no mercado. Não houve o crescimento em vendas e os ganhos imaginados.

Quase um ano depois da liberação, os canadenses compraram 11.707 kg de cannabis seca. Mas os produtores tinham um total de cerca de 165.000 kg de produtos acabados e inacabados prontos para venda: mais que o suficiente para atender a demanda por um ano inteiro. Uma das motivações das autoridades canadenses para legalização da maconha foi o combate às atividades ilegais. Mas isso ainda não se tornou realidade. Segundo o Statistics Canada, cerca de 75% dos usuários de maconha ainda usam cannabis ilegal.

De aprendizado da experiência canadense fica a necessidade de se organizar uma rede de distribuição com capilaridade para atender à demanda. E respeitar também a questão da oferta e da procura. Entre as razões apontadas por especialistas para a manutenção de um mercado ilegal, apesar da legalização, está o fato de as lojas oficiais serem mais longe e cobrarem mais caro.

Além do Canadá, África do Sul, Uruguai e, mais recentemente, o México também legalizaram o uso recreativo da maconha. Nos Estados Unidos, somente em alguns estados o uso recreativo é liberado. Mas, segundo levantamento da consultoria Whitney Economics, atividades ligadas à cannabis já empregam 300 mil pessoas em território americano – mais do que as fabricantes de cerveja, que contam com cerca de 80 mil trabalhadores. Somente no estado da Califórnia a indústria de cannabis renderá cerca de US$ 1 bilhão em impostos aos cofres públicos em 2020.

Polo disruptivo

No Brasil, um dos atores fomentadores desse ecossistema é a The Green Hub (TGH). A empresa iniciou sua operação em 2016, na esteira de um problema sanitário que afligiu parcela dos brasileiros. “Naquela época, as mães estavam batalhando junto à Anvisa para ter acesso a medicamentos a fim de tratar seus filhos”, recorda o diretor de Negócios Marcelo Grecco.

O caso foi o clique que faltava para Marcelo e Marcel Grecco se juntarem a Alex Lucena e fundar a empresa, que aposta na tríade cannabis, inovação e tecnologia para crescer. “A The Green Hub une uma perspectiva de negócio a nossos sonhos pessoais. Já trabalhávamos com startup e queríamos desenvolver algo disruptivo, escalável e com potencial para mudar o mundo”, conta Grecco.

Estrategicamente, a visão foi começar preparando o mercado brasileiro para o tema, envolto por desinformação e bastante preconceito. No início, a TGH funcionou como um polo disseminador de informações do mundo inteiro, um trabalho de curadoria. Em seguida, começaram a fornecer dados primários: relatórios que apresentavam o potencial desse mercado no Brasil e na América Latina.

“Nossa postura nunca foi de ativismo. Atuamos fazendo advocacy para ir formando esse ecossistema.” O trabalho com dados, explica Grecco, elevou o conhecimento junto a formadores de opinião, passo importante para o desenvolvimento do ecossistema do negócio. “Passamos então a nos posicionarmos como aceleradores de startups.”

Acelera, cannabis

Como aceleradora, a The Green Hub identifica e mapeia projetos ligados à área medicinal, validando sua potencial atuação no mercado. O Centro em Excelência Canabinoide (CEC) foi o primeiro negócio acelerado. A instituição funciona como um multiplicador e referência de acesso especializado no uso medicinal da cannabis, comandado pelo neurocirurgião Pedro Pierro.

Outras duas startups são aceleradas pela TGH: a Jamba, que desenvolve um programa social em comunicação, e a CannaPag, fintech voltada para pagamentos personalizados para o mercado da cannabis no Brasil. Pioneira, a CannaPag oferece um sistema de Internet Bank para as associações de pacientes e estabelecimentos de saúde. Nasceu a partir do problema que uma associação de pacientes de cannabis enfrentava para ter acesso a métodos de pagamento que atendessem suas necessidades.

A TGH continua focada na missão de despertar consciências sobre o tema. Um braço importante nesse sentido é o Cannabis Thinking 2.0, lançado neste ano. Realizado numa plataforma online, o evento reuniu os maiores nomes do setor da cannabis para falar sobre política, sustentabilidade, medicina, ciência, economia, impactos sociais, inovação e tecnologia. E contou com também com pitch sessions.

O Cannabis Thinking foi realizado em março, antes de a pandemia mudar as dinâmicas sociais, laborais e de negócios de Brasil. E desacelerar os planos da TGH. Mas o mercado acelerou. “Quando chega a pandemia, o mundo mudou com relação a cannabis, mesmo o setor recreativo. Em duas semanas virou produto essencial. Começou a ser usada para insônia, ansiedade. Você começa a ver esse lado medicinal indo para outros lugares”, analisa Grecco.

Ele vê com bons olhos esse desdobramento de um outro fenômeno, iniciado em 2018, a associação do cânhamo, fonte do CDB (Cannabidiol), à saúde e bem-estar. “Os estudos estão avançados. Há muita pesquisa sobre DNAs, para ver como organismo reage a cada canabinoide. Isso se desdobra nas microdosagens: a recomendação da quantidade certa do princípio ativo, evitando, por exemplo, que o paciente fique com muito sono ou paranoico”, explica.

Commodity do futuro

Para Grecco, a planta hoje é a commodity que pode tirar o Brasil da recessão econômica na qual o país submergiu nas últimas décadas. A cannabis é uma planta única, milenar, que se divide em hemp (ou cânhamo) e maconha. O primeiro tem alto teor de CDB e baixo THC (Tetrahidrocanabinol); o segundo é o contrário: altos valores de THC e baixo CDB.

O THC tem efeitos psicoativos e pode tratar algumas doenças, mas foi usado para demonizar a cannabis. Já o cânhamo tem mais de 25 mil aplicações e é cercado por curiosidades histórias: a primeira bandeira dos Estados Unidos tinha cânhamo; a primeira Constituição norte-americana foi feita com papel de cânhamo, assim como as velas das caravanas portuguesas que vieram para as Américas.

Fatos históricos à parte, as duas vertentes da cannabis se quebram em quatro áreas de atuação: industrial (de papel a concreto, passando pelo setor têxtil); saúde e bem-estar (de óleos a infusões), medicinal e recreativo.

“No caso do cânhamo, você usa da folha até a raiz. Você pode produzir de biocombustível a tecidos, de uma forma bem sustentável, visto que usa menos água que o algodão. Na verdade o preconceito contra a cannabis foi sendo construído por algumas indústrias, como a de algodão, a farmacêutica, para ocupar esses espaços. Como era usada também para fins recreativos por grupos marginalizados – como indígenas, negros e mexicanos – usou-se também do racismo para desmerecer a planta. O nome ‘marijuana’ é fruto desse movimento preconceituoso, numa tentativa de associação pejorativa a mexicanos”, explica Grecco.

No Brasil, o uso amplo da cannabis ainda está distante do patamar visto na América do Norte e Europa. Há um esforço direcionado exclusivamente ao uso medicinal.

Para Grecco, a planta pode trazer uma revolução verde para o Brasil, num projeto que una pequenos produtores, empreendedores e cientistas. “O Brasil pode ter uma grande vantagem nesse mercado, porque há terras e mais terras. Nossas produções agrícolas alimentam o mundo. Por que não investir em mais essa commodity?”

Ele acredita que a cannabis pode levar o país a ocupar um outro patamar no comércio global, deixando de ser visto somente como exportador de commodities. “Podemos desenvolver uma cadeia produtiva da cannabis: investir em tecnologias para criar produtos finais refinados, cosméticos, alimentos, remédios e tratamentos.”

Apenas no Brasil, milhões de pessoas poderiam encontrar no uso medicinal da cannabis melhor qualidade de vida. O cofundador da TGH destaca que hoje o país vive uma grave contradição, pois regulamentou a comercialização de medicamentos à base de cannabis, reconhecendo seus efeitos terapêuticos, mas não o cultivo. Isso dificulta as pesquisas e acaba por impedir o acesso aos produtos para a maioria absoluta da população. Grecco lembra que o governo brasileiro votou contra a retirada da maconha da lista de drogas perigosas da ONU.

O atraso se deve tanto à inação do Poder Executivo quanto do Legislativo: a tramitação do Projeto de Lei 399/2015, que regulamenta o cultivo da cannabis para uso medicinal e industrial, está parada no Congresso Nacional.

Para Grecco, um passo importante é tirar o cultivo da ilegalidade. O ônus de manter a planta ilegal é pesado: desde produtos de má qualidade e que não pagam impostos até o aumento da violência. Sem falar nos milhares de vidas perdidas. Os problemas não cessariam com uma eventual aprovação do PL 399. Há um longo caminho a ser percorrido. “A primeira missão é construir um alicerce sólido para quem quiser trabalhar nesse ecossistema e tenha as condições mínimas necessárias para ser bem-sucedido. Conectar oportunidades, fazer advocacy, para que os investidores tenham segurança pra navegar”, explica.

O Brasil não tem um braço institucional dedicado a preparar a operação desse novo mercado. Se o PL fosse aprovado já na volta do recesso parlamentar, geraria mil perguntas: desde onde plantar, que tipo de semente e para quem vender, por exemplo. Foi o que aconteceu no Equador, onde o governo aprovou e não se envolveu no desenvolvimento ou estruturação desse mercado.

É para que essa oportunidade não seja perdida que a The Green Hub trabalha. “Sou muito businness, mas a motivação lá atrás a gente não perde. Sempre lembro do começo, as crianças com autismo que, com medicação adequada, conseguem frequentar escolas, um ganho em qualidade de vida imenso. O mesmo caso de mulheres com fibromialgia, que não conseguiam trabalhar antes. A cannabis trata o mal de Parkinson e o de Alzheimer. Pode ser usado no combate à fome e na promoção do desenvolvimento sustentável. Não faz sentido algum proibir algo que pode colocar o Brasil em patamar internacional, além de ajudar a saúde das pessoas”, resume Grecco.

O empurrãozinho virá do Norte, aposta: “Os Estados Unidos vão ajudar a regulamentar a cannabis, tirar da ilegalidade e levar para legalidade. O dia em que o governo norte-americano federalizar a cannabis a gente pode comemorar!”

Enquanto a regulamentação plena não vem, empresas como a TGH continua preparando o terreno para as sementes germinarem. A certeza é que germinarão. Grecco sonha em acelerar os primeiros unicórnios do mercado de cannabis da América Latina. Um futuro verdejante.

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