Mobilidade pós-pandemia PIN

A pandemia da Covid-19 traz novos desafios à mobilidade urbana, no Brasil e no mundo. No caso das metrópoles brasileiras, a equação ainda é mais complexa, dados os gargalos e problemas estruturais que caracterizam o setor e penalizam a população. O medo do contágio tende a afastar o passageiro do transporte público. E também de serviços de aplicativos, como Uber.

Até agora, a pandemia provocou queda de cerca de 70% na demanda por transportes públicos no Rio. Com a gradual volta à normalidade, cerca de 3% dos usuários disseram que não estão dispostos a embarcar em trens, ônibus, BRTs, metrô, VLT e barcas, por medo de contágio do coronavírus. Os dados fazem parte de um estudo, que ouviu 33 mil passageiros, entre os dias 24 e 28 de abril, em Bogotá, Buenos Aires, Cidade do México, Guadalajara (México), Guaiaquil (Equador), Montevidéu, Rio de Janeiro, Santiago e São Paulo. A pesquisa foi realizada pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) em parceria com o aplicativo Moovit.

Do total de entrevistados, cerca de 8% não pretendem voltar ao transporte público, mesmo depois do afrouxamento das medidas de isolamento social. Enquanto 68% disseram que pretendem seguir viajando nos modais, 23% declararam estar indecisos. No estudo, São Paulo e Rio de Janeiro apresentam maior percentual de viagens por motivo de trabalho, com 80% e 79%. Buenos Aires e Montevidéu ocupam a terceira e a quarta posição, com 77,45% e 77,04%, valores próximos à média de 77%.

Morgan Doyle, representante do BID no Brasil, comenta que as cidades brasileiras (Rio e São Paulo) que participaram da pesquisa apresentaram o maior número de pessoas que continua utilizando o transporte público durante a pandemia, principalmente para trabalhar. “Isso ocorre porque no Brasil a maior parte dos usuários de transporte público são das classes mais vulneráveis economicamente, correspondendo a 53,8% na classe C e 60,8% nas classes D e E. O levantamento mostrou também que 86% das pessoas ouvidas relataram piora no serviço nesse período, como atrasos, superlotação e longos intervalos.

O country manager LATAM da Moovit, Juan Palacio, disse que a pesquisa mostra que, mesmo durante a crise, o transporte público continua a ser um salva-vidas para quem precisa se locomover e que essa dependência não mudará. “Isso significa que as operadoras têm de estar preparadas para a redução de passageiros em larga escala e que essa é uma oportunidade de mudar paradigmas nos transportes”, comenta Palacio.

Mudanças impostas pela pandemia

Para o professor da PUC-RJ, José Eugênio Leal, até esta pandemia ser totalmente superada, as pessoas que têm recursos e alternativas vão tentar se proteger. “Elas vão dar preferência ao veículo próprio. Esse é o máximo de isolamento possível no transporte. Quem não tiver veículo próprio vai usar táxis e aplicativos quando puder”, revela José Eugênio.

O engenheiro argumenta que todos os modais públicos tendem a perder passageiros, e as autoridades vão ter que restringir o tráfego, porque a infraestrutura não vai dar conta da sobrecarga de veículos. “Pense no melhor transporte de massa, o metrô: como vão resolver e dar confiança à população na questão da contaminação com o ar condicionado? O mesmo acontece, em parte, com o trem. O ônibus pode ser menos afetado, pois pode trafegar com as janelas abertas”, avalia José Eugênio.

Na análise da engenheira Eva Vider, pelo o que está acontecendo nos países que já retomaram as atividades, não serão permitidas por algum tempo as aglomerações de pessoas. “Em se tratando de transportes públicos significa que a lotação dos veículos deverá ser alterada, evitando ao máximo as pessoas em pé em trens, metrôs, bondes, BRTs e ônibus.

Segundo a professora da Escola Politécnica da UFRJ, isso exigirá um aumento na oferta de horários, que em alguns casos se refletirá em necessidade de aumento de frota, com o consequente aumento do pessoal de operação – motoristas, cobradores, agentes de tráfego, etc. A limpeza e higienização permanentes dos veículos, dos pontos de embarque e dos terminais será uma exigência normal. Eva Vider acrescenta que todas essas medidas elevarão os custos operacionais, e os poderes concedentes precisarão rever as políticas tarifárias atualmente adotadas, para que os passageiros não paguem essa conta sozinhos com o consequente aumento das passagens. “Poderão ser criados programas de crédito especiais para aquisição e modernização da frota do transporte público em geral, aproveitando o momento para melhorar a qualidade dos serviços oferecidos à população”, explica a engenheira.

Estudo da Coppe/UFRJ divulgado no fim de junho, realizado com o objetivo de reduzir o contágio e a letalidade da Covid-19, na retomada das atividades econômicas, também recomenda apoio financeiro às empresas. A finalidade é ajudá-las a se ajustar às novas exigências operacionais. Entre as propostas imediatas, para ser tomada dentro de 30 dias, está a implantação de instrumentos para suporte à liquidez, incluindo injeções de dinheiro por meio de subsídios condicionados à comprovação de real desequilíbrio, bem como de compromissos de garantia e melhoria dos serviços oferecidos. Também no período inicial, os pesquisadores da Coppe sugerem fornecer linhas de crédito de rápido desembolso, oferecendo empréstimos garantidos e com juros mais baixos para atender às necessidades de capital de giro no curto prazo.

Medidas de segurança para passageiros e funcionários do setor de transportes

A estimativa do estudo da Coppe/UFRJ encaminhado para a Secretaria de Estado de Transportes é de que, diariamente, mais de 1,4 milhão de pessoas se desloquem entre municípios, por ônibus e vans. Só no pico da manhã, das 7 às 8 horas, 543 mil passageiros são transportados por ônibus intermunicipais. Além disso, a totalidade das viagens em metrô e a maioria das viagens em trem são internas à cidade do Rio. Por isso, o professor Rômulo Orrico, um dos coordenadores do estudo, defende ações rápidas de forma integrada, como ocorreu em países como Alemanha, França e Coreia do Sul, que dependem de forte articulação horizontal, entre as diversas secretarias, e vertical, entre os municípios e o estado.

O professor afirma que os veículos de transporte público estão entre os locais de maior potencial de transmissão da Covid-19. Orrico considera fundamental que haja uma articulação governamental, de forma que os secretários de Transporte do estado do Rio e das prefeituras tenham como orientar os operadores de transportes.

Entre as medidas de proteção estão a obrigatoriedade do uso de máscaras nos veículos e dentro dos terminais, isolamento do motorista dentro dos ônibus e medição de temperatura de todos os funcionários das empresas de transporte. Para garantir o uso de máscaras, os pesquisadores consideram a fiscalização como uma medida importante e que deve estar presente nas plataformas de trens, metrô e BRTs para assegurar que todos os usuários cumpram as regras. Já nos ônibus, sugerem criar instrumentos que confiram ao motorista autoridade para proibir o ingresso e permanência de pessoas sem máscaras no transporte, sendo respaldado pelos agentes de segurança quando necessário.

“Em diversas cidades do mundo, como Salvador, Vancouver (Canadá) e Skåne (Suécia), o distanciamento do motorista de ônibus também é garantido com barreira física em material plástico, isolando o assento do motorista, bem como com a proibição de uso de assentos próximos ao motorista, também isolados com fita e cartazes. Outra ação importante, para controlar a propagação do coronavírus, é a testagem e isolamento dos infectados. Como há dificuldade de realização de testes, a União Internacional de Transporte Público (UITP) propõe que se realize, ao menos, a aferição da temperatura dos funcionários que trabalham em contato com a população”, explica Rômulo Orrico.

Os pesquisadores da Coppe alertam que é necessário que se tenha álcool em gel disponibilizado para todos, higienização e medidas de distanciamento no interior dos veículos e nas plataformas. De acordo com eles, é preciso sinalização dentro dos veículos, com demarcações alternadas e em diagonal, determinando os assentos a serem deixados vagos, conforme recomendações da UITP. Nos metrôs e trens, o correto é que tenha marcações no chão para passageiros em pé, respeitando a distância mínima de um metro. “Já nos ônibus, barcas e BRTs, jamais a permanência de pessoas em pé; e os pontos e plataformas de embarques também devem contar com sinalizações de distanciamento demarcadas no chão, mantendo distância mínima de um metro entre os usuários. Tais medidas foram implementadas em diversas cidades, a exemplo de Miami e Londres”, diz Rômulo Orrico.

Fizeram parte do estudo, sob a coordenação dos professores Rômulo Orrico e Matheus Oliveira, os pesquisadores Bruno Coelho, Gabriela Binatti, Ígor Maranhão, João Melo, José Paiva Neto, Júlia Fagundes, Mariana Carneiro, Priscila Carvalho, Ycaro Batalha e Dario Almeida. •

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