O bem viraliza PIN

Por Kelly Nascimento, Editora de Insight Bioma

A pandemia amplia e evidencia o fosso social brasileiro. A escalada das mortes, principalmente nas camadas mais pobres da população, somada ao desemprego – que já chega na faixa dos quase 30 milhões, considerando os que procuram e os que não procuram emprego – e à quase inação do governo federal – estamos há mais de 1 mês sem ministro da Saúde – assusta. Mas também chama à ação.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a Covid-19 é mais dura com pretos, pardos e pobres. Além de relatarem incidência maior dos sintomas da Covid-19, brasileiros desses grupos também sentiram de maneira mais forte os impactos econômicos provocados pela pandemia. Pesquisa da Universidade de São Paulo e do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) mapeou medos e insatisfações dessa população por meio da escuta de lideranças das regiões metropolitanas de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife, Salvador e Manaus e do Distrito Federal, além de três cidades do interior, Campinas (SP), Joinville (SC) e Maringá (PR).

A percepção dos líderes ouvidos pela pesquisa é de que ainda é difícil o acesso ao auxílio emergencial de R$ 600 oferecidos pelo governo. Os pesquisadores da USP/Cebrap monitoram desde maio a opinião e o impacto da pandemia nos setores mais vulneráveis da sociedade brasileira. Falta de comida, renda e emprego são as principais preocupações dos moradores das periferias brasileiras.

No meio dessa situação de desamparo, associações de bairro e outras organizações locais foram apontadas como um ponto de amparo por 66% dos entrevistados. Moradores que colaboraram como voluntários para a distribuição de alimentos e outras atividades foram citados por 41% dos participantes da enquete.

No Complexo do Alemão, na cidade do Rio de Janeiro, uma triangulação Rio – São Paulo – Itália materializa os dados da pesquisa. Da(re)conexão de quatro cidadãos, surgiu o projeto Bolsa do Bem.

Robson Santos, especialista em impacto social e morador do Complexo, conta que a ação foi precedida por uma sensação de angústia. “Saber que o vírus estava chegando ao Brasil, na hora pensei no risco da população passar fome, dada à grande desigualdade social do nosso país, me fez querer fazer alguma coisa a respeito, pensar em formas de ajudar pessoas durante a pandemia”, lembra.

A inquietação não era só dele. Conversas a respeito reconectaram Robson a Jessica Hollaender, Marcos Paim, Monica Picavea. Do encontro virtual nasceu o Bolsa do Bem. O projeto é apresentado como uma corrente do Bem para apoiar mães que precisam de ajuda neste momento de emergência tão difícil.

A formatação da proposta teve o diferencial de ouvir o centro da iniciativa: pessoas em situação de vulnerabilidade. Pode parecer um passo óbvio, mas nem sempre é assim. “Partimos da ideia de doação de alimento. Mas, conversando com os locais, chegamos à realidade dessas pessoas. Não adianta ter comida se não tem gás para cozinhar”, explica Robson.

O elemento realidade fez com que os fundadores chegassem à linha de ação do Bolsa do Bem: apadrinhamento de mães por três meses, o tempo de duração que as autoridades até então estimavam para a pandemia de Covid-19.

O projeto se equilibra sobre três pilares de emergência: (aqui e agora), confiança e conexão. O dinheiro entra como meio para fazer acontecer, não atividade-fim. “Não queríamos ser intermediários, mas ponte. Fizemos conexão entre quem precisa e quem quer ajudar. A relação é direta: colocamos os padrinhos em contato com as afilhadas. Eles mesmos depositam na conta. Essa foi uma grande sacada, a conexão que a gente abriu entre dois mundos tão diferentes, pessoas que não se conhecem, nunca se conheceriam. A conexão foi tão grande que temos padrinhos e afilhados se falando por três meses, uma ligação que vai além do Bolsa do Bem, conectando”, conta Jéssica.

A confiança é trabalhada na forma de autonomia para aquela mãe beneficiada usar o dinheiro da forma que considerar mais relevante para sua família naquele momento. “Você empodera o sujeito. A escolha é dele. O padrinho não está numa posição de poder. Temos muito que aprender com as favelas. Muitas mães que receberam o benefício, que é como elas chamam, elas doam pros outros também. Elas dividem”, conta Marcos Paim.

Batendo na porta de quem precisa

São três as figuras centrais do projeto: as afilhadas, os padrinhos e os apresentadores. Estes têm a função de percorrer as ruas do Complexo do Alemão e da Brasilândia, selecionar e apresentar mães ao programa. “Baseamos na nossa ação em confiança. Atuo em comunidade há mais de 10 anos: no Alemão, Rocinha, Maré. Os agentes da comunidade, esses apresentadores, fazem a triagem para o projeto. Queremos chegar a quem tem mais vulnerabilidade. Todas as pessoas que estão no Bolsa do Bem são muito conhecidas por nós. Isso valida a participação delas. O critério é que o apresentador as conheça de perto. Nós também avaliamos as histórias”, detalha Robson.

Não é tarefa fácil. A população que mora nas favelas brasileiras integra o grupo dos que têm mais risco de se contaminar pelo coronavírus. São locais conhecidos por sua precariedade, em que falta saneamento básico e até mesmo água, item essencial para seguir as medidas de higiene necessárias nesta pandemia de Covid-19. “Tem também a questão do acesso difícil. São muitas casas, uma em cima da outra, impossível não ter aglomeração”, diz Robson.

A desbancarização e dificuldade na comunicação são outras adversidades desses territórios que o projeto teve de superar. “Algumas pessoas tiveram dificuldade em obter o auxílio emergencial por causa disso. São os ‘invisíveis’. O número de desbancarizados na comunidade ainda é grande. E não podíamos deixar de atender alguém porque essa pessoa não tinha conta bancária, por exemplo”, complementa.

Ameaças da vida real

A questão policial e violência incomoda o morador de favela. Mas, em tempos de pandemia, nada assusta mais que o medo de perder o emprego. Desde março, quando a economia brasileira começou a sentir os efeitos da pandemia do novo coronavírus, um total de 1,94 milhão de pessoas deu entrada em pedidos de seguro-desemprego.

Reflexo dessa conjuntura, parte das pessoas são hoje atendidas pelo Bolsa do Bem. “Notamos que as pessoas que entravam pro projeto eram os novos pobres. Pessoas que ficaram desempregadas, sempre trabalharam, nunca precisaram do Bolsa Família, mas se viram nessa situação de falta de renda”, detalha Jéssica.

E, apesar da adversidade, o Bolsa do Bem trabalha com o lema “ninguém é tão pobre que não tem nada a dar, nem tão rico que não possa receber algo”. Isso muda as dinâmicas sociais. “Tem a questão de reciprocidade. O que a afilhada tem para dar ao padrinho? Faz muita diferença. Não é uma relação mercantilista. Nossa brincadeira é: será que não tem nada pra dar? Pensa de novo. Quando eu digo isso, a pessoa muda de posição. A pessoa começa a pensar em si. Fazer um vídeo, um bolo, uma oração, uma canção”, conta Marcos Paim.

Marcos gosta de ressaltar que é tudo sobre pessoas. “São pessoas. Sempre sobre pessoas. Quando ela se posiciona e apresenta isso, tem essa questão de se colocar no lugar. Tem um vídeo de uma afilhada, uma pessoa em situação crítica. Ela apresenta a casa dela, filho, marido, cunhada. Dentro da casa têm sete pessoas. Em situação visualmente muito dura, difícil. Mas a energia, ela tem uma postura tão positiva, ela tem orgulho do que ela tem. O vídeo tem um impacto positivo em muitos padrinhos. Estimulou essa pessoa a motivar outras pessoas a participarem.”

Ele destaca que a função do Bolsa do Bem é, dentro do microcosmo em que atua, funcionar com uma rede de proteção que evite uma queda maior, num período de dificuldade extrema, como o do momento em que se perde o emprego e o cidadão se percebe impossibilitado de garantir comida no prato de sua família. “É impressionante a velocidade de queda dessa pessoa. Hoje é uma pessoa, em uma semana é um morador de rua. Roupa suja, barba mal feita. Não consegue mais emprego. Vira um pária social. Quando você começa a trazer a pessoa pra dentro do jogo, você muda um pouquinho. Não temos a pretensão de salvar vidas, mas de mudar um pouquinho”, diz Marcos.

O impacto é muito além do dinheiro. “Um dos resultados dessa fase do projeto é que muita gente aprendeu o impacto que pode ter na vida das pessoas. Ao fazer uma doação, é comum a pessoa pensar que se limita a dar dinheiro para os outros. Não é isso. É bem mais que isso”, completa Jéssica.

Projetado para durar três meses, o Bolsa do Bem pode entrar numa fase dois. “Até chegamos a pensar em trazer o ambiente corporativo pro jogo, mas isso perderia o lado de conexão pessoal. A conexão é muito mais forte que uma palavra. Está no DNA do Bolsa do Bem. Queremos trazer a pessoa por completo. A gente estimula a pessoa a falar da realidade dela. Pedíamos para as afilhadas mandarem foto de um momento feliz. São pessoas. Queríamos estimular a conexão de sentimentos bons. Esse foi o maior impacto”, afirma Jéssica. Ela acredita que o Brasil será salvo pelas mãos das pessoas comuns. As do bem.•

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