Leite baixo carbono: parceria coloca Brasil na rota da alimentação sustentável PIN

Lucas Rocha, jornalista

Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPP), em São Carlos (SP). Crédito: Gisele Rosso/Embrapa

A redução das emissões de carbono é atualmente um dos principais pontos na discussão sobre as mudanças climáticas no planeta. Isso se deve ao fato de o dióxido de carbono (CO2) contribuir para o aumento da temperatura na superfície terrestre por ser um dos chamados “gases estufa”, que ajudam a reter a radiação provinda do Sol. A elevada concentração desses gases na atmosfera, principalmente devido à queima maciça de combustíveis fósseis e florestais pela ação humana ao longo do tempo, faz com que o efeito estufa passe a ser um grande problema ao provocar uma elevação bem acima do ideal, o chamado aquecimento global.

Não à toa, entre os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU a preocupação com o tema se encontra em pelo menos dois tópicos. O ODS 9 (Indústria, Inovação e Infraestrutura) visa até 2030 “modernizar a infraestrutura e reabilitar as indústrias para torná-las sustentáveis, com eficiência aumentada no uso de recursos e maior adoção de tecnologias e processos industriais limpos e ambientalmente adequados; com todos os países atuando de acordo com suas respectivas capacidades”.

Já o ODS 13 (Ação contra a mudança global do clima) tem entre as metas “integrar medidas da mudança do clima nas políticas, estratégias e planejamentos nacionais”, entre elas a fiscalização das emissões totais de gases de efeito estufa por ano.

Considerando todo esse cenário preocupante, surgiram iniciativas que visam estimular governos, pessoas e empresas a se conscientizarem e reduzirem suas emissões diretas e indiretas. Algumas certificações como o “Selo Prima Mudanças Climáticas”, da entidade Prima (Projeto de Reflorestamento Integrado da Mata Atlântica) e o Selo Produto Neutro de Carbono, do IBDN (Instituto Brasileiro de Defesa da Natureza) são exemplos de estímulos que contribuem para boas práticas em relação à neutralização do carbono. A ideia é propor metas de diminuição e de compensação do CO2, certificando o portador do selo como um praticante de processos sustentáveis.

No Brasil, uma das iniciativas recentes criadas para impactar positivamente esse contexto foi firmada no final de fevereiro. Trata-se da parceria entre a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) com a Nestlé, empresa multinacional do setor de alimentos e bebidas, para a produção do leite de baixo carbono.

Protocolo de produção de leite baixo carbono

A parceria visa desenvolver um protocolo para pecuária de leite de baixo carbono. Por parte da Embrapa, indicadores de sustentabilidade já desenvolvidos e a implementação de boas práticas de produção nas fazendas leiteiras vão integrar o protocolo e servirão de auxílio no objetivo da Nestlé, de neutralizar todas as emissões de suas operações, incluindo suas cadeias de fornecimento, até 2050. Trata-se de um processo a longo prazo, com metas intermediárias de redução de 20% até 2025 e de 50% para 2030.

Segundo a gerente de Desenvolvimento de Fornecedores e Qualidade da Nestlé Brasil, Barbara Sollero, a parceria com a Embrapa surgiu da necessidade de um maior conhecimento sobre a pecuária de leite de baixo carbono e principalmente de ter acesso uma calculadora de pegada de carbono adaptada aos diferentes biomas e sistemas de produção do Brasil.

“Unimos nossas forças para termos orientações, guias com conteúdos práticos sobre o tema, além de uma calculadora que ajudará os produtores rurais a quantificarem e repensarem suas emissões. Atualmente, não existe nenhuma ferramenta que consiga mensurar de forma adaptada para a realidade brasileira as emissões geradas em propriedades leiteiras do país”, afirma Barbara.

A iniciativa faz parte do pilar de agricultura e pecuária sustentáveis da Nestlé, voltado para questões como o bem-estar animal, emissões e mudanças climáticas e uso de água e energia nas propriedades. Assim, a empresa vê a parceria como um passo importante para tornar sua cadeia de fornecimento de leite o mais sustentável possível, deixando um legado positivo para todos: produtores, captadores de leite, consumidores e o mercado de forma geral.

Um dos resultados será a criação de uma calculadora de pegada de carbono adaptada aos biomas brasileiros

Pesquisa e tecnologia com DNA brasileiro

A Embrapa, por sua vez, atua no desenvolvimento de pesquisas e tecnologias que visam tornar a agropecuária mais eficiente, de forma a produzir alimentos em processos cada vez mais sustentáveis. Alguns exemplos como sistemas de integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), recuperação de pastagens degradadas e uso de aditivos na nutrição têm apresentado bons resultados na redução de emissões e no sequestro de carbono.

De acordo com o chefe de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Pecuária Sudeste (São Carlos – SP), Alexandre Berndt, a relação com a Nestlé é antiga e isso colaborou para a parceria.

“Por conta dessa experiência, foi algo natural a Nestlé, quando decidiu avançar no estudo de redução de emissão de gases, entrar em contato conosco. Temos alguns modelos nacionais para calcular as emissões e pretendemos intervir com a adoção de diferentes tecnologias que sejam voltadas à sustentabilidade para menor emissão de carbono”, destaca Alexandre. 

A Nestlé avança para tornar sua cadeia de fornecimento de leite o mais sustentável possível

Pioneirismo e tendência

Um aspecto destacado na parceria é o pioneirismo. De acordo com Alexandre, a preocupação na busca de soluções nacionais, ou seja, adequadas para a realidade de produção brasileira, é um grande diferencial. “É muito difícil você pegar uma tecnologia europeia, por exemplo, e transpor imediatamente para o Brasil. Existem diferentes condições de produção que demandam diferentes tecnologias. Então é uma parceria pioneira porque está bem focada nessa questão de produzir o leite com baixo carbono considerando a realidade do Brasil”, aponta.

A Embrapa já trabalhou com outras parcerias do tipo, como por exemplo a carne de carbono neutro e a soja de baixo carbono. Considerando o cenário atual, onde a preocupação com práticas sustentáveis é cada vez mais urgente, é possível notar uma tendência em ações desse tipo, conforme sinaliza o chefe de Pesquisa da Embrapa.

“Todas as cadeias de produção de alimentos estão preocupadas em ter as suas emissões compensadas, assim como outros setores como o de energia, que está buscando fontes alternativas, o setor de transporte também busca a neutralização de emissões, é uma busca global para que tenhamos essa neutralidade até 2050. Certamente outras cadeias irão aderir a essa proposta”, detalha Alexandre.  Um futuro promissor.

Compartilhe

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn
Share on whatsapp
WhatsApp