Sustentabilidade à flor da pele PIN

Indústria brasileira da tatuagem dá novas cores à preservação ambiental

Por Amanda Nonato

Foto: Genifer @adonadaminhavida

A preservação ambiental está grudando no corpo de um setor emergente da economia feito tatuagem. A indústria das tatoos começa a dar uma valiosa contribuição ao bioma, por meio da crescente escolha de insumos menos prejudiciais ao ambiente. Essa transformação se deve, sobretudo, ao crescimento do número de estúdios veganos no Brasil.

As práticas tradicionais de tatuagem usam tintas de origem animal, as quais, em sua produção, causam danos ao planeta. Para obter a tintura da cor preta, por exemplo, é preciso queimar, em alta temperatura, ossos de animais. Mineral altamente poluente, o carvão que sobra dessa atividade é utilizado para o manuseio da cor. Os pigmentos vermelhos são extraídos do inseto cochonilha; em outros corantes também são usados gelatina animal.

As tinturas são só um dos componentes prejudiciais ao ambiente na cadeia da indústria da tatuagem. Há também os produtos, loções, pomadas e cuidados pós-tatuagem que podem conter derivados das abelhas, como cera alba, própolis e mel, lanolina (que é obtido de lã de abelha), glicerina animal (vísceras de animais ruminantes) e óleo de fígado de bacalhau.

Vegetariana há sete anos e vegana há quatro, Fernanda Guedes é dona de um estúdio de tatuagem 100% vegano, em Resende, sul do estado do Rio de Janeiro. Ela explica que na maioria das vezes todos esses ingredientes de origem animal são desnecessários. Atualmente, o mercado possui muitos produtos veganos, diferente do que se praticava no passado.

“Existem inúmeros deles de origem vegetal, como glicerinas e outros. Já temos tecnologias e estudos o suficiente para substituir ou até mesmo retirar de vez esses ingredientes dos produtos, mas como eles sobram da indústria da carne, acabam tendo um valor um pouco mais baixo e ainda faz sentido para muitos.”

Em recente artigo sobre a indústria de cosméticos, publicado no site Politize!, a Mestre em Política Social e doutoranda em Ciências da Sustentabilidade, Juliana Oliveira de Almeida, aponta que a produção de insumos nos moldes convencionais utiliza cerca de mais de 10 mil substâncias químicas e petroquímicas, conhecidas por Poluentes Orgânicos Persistentes, de difícil decomposição.

Entre as substâncias de impacto negativo estão microesferas/microplásticos (pequenas partículas de polietileno), corantes, neutralizantes, ceras parafínicas, UV filtros, conservantes como parabenos, triclosan e polímeros sintéticos.

A ONG Greenpeace, em 2009, divulgou um relatório mostrando a relação entre o desmatamento da floresta Amazônica e a indústria de higiene e beleza, apontando a fabricação de subprodutos como a glicerina. Outra Organização Não-Governamental que atua na defesa do meio ambiente, Rede WWF propõe o extrativismo vegetal sustentável para essa produção.

Segundo o blog Crédito de Logística Reversa, os cosméticos sustentáveis são “aqueles que foram desenvolvidos levando em consideração todos os impactos de seu ciclo de vida, optando-se assim por alternativas que minimizem tais impactos”.

Ainda no artigo do Politize! Juliana coloca em categorias alguns destes produtos amigáveis ao meio ambiente. Entre eles estão, podem ser os que não são testados em animais (Cruently Free), os livres de Parabeno, que é considerado um ingrediente cancerígeno (Paraben Free), sem matérias-primas de origem animal (veganos), com matérias-primas certificadas como livre de agrotóxicos (orgânicos), orgânico, livre de aditivos químicos e com respeito ao ciclo natural da matéria-prima (biodinâmicos), etc.

Foto: Genifer @adonadaminhavida

Apesar de, atualmente, haver diversas opções de produtos para tatuagens, ainda não há comprovação sobre o aumento da qualidade de uma tatuagem. “O que podemos dizer é que a chance de uma alergia é bem menor, porque usamos muito mais ingredientes naturais, provenientes da natureza”, comenta Fernanda.

Mas as práticas de sustentabilidade não ficam apenas na escolha dos produtos, e sim em todas as frentes do processo de trabalho. A conscientização sobre o impacto positivo que esse estilo de vida causa ao meio ambiente também faz parte da rotina.

“Só o fato do estúdio deixar claro que é vegano, já abrimos portas para muitos diálogos com pessoas que nunca tinham questionado a forma com que consumiam. Quando mostramos todos os dias nas nossas redes sociais que ser vegano é possível, é gostoso e é mais simples do que imaginam, estamos fazendo a nossa parte para que pessoas deixem de explorar animais e, consequentemente, salvem o meio ambiente”, pontua.

Descarte de resíduos nos estúdios

O mercado da tatuagem cresce de forma exponencial no Brasil, terceiro lugar no ranking mundial do setor. São mais de 22 mil estúdios, sendo cerca de 21 mil sob o formato de microempreendedor individual (MEI).

Os estúdios de tatuagem são considerados geradores de Resíduos Sólidos de Saúde (RSS) e precisam de um serviço especial para a coleta, com base no Plano de Gerenciamento de Resíduos de Serviços de Saúde (PGRSS). O não cumprimento do Art. 29 da Resolução Conama 358/05 sujeita o responsável pelo estabelecimento a penalidades enquadradas como Crimes Ambientais.

O ambientalista Luís Felipe César explica que é esse plano que define os eventuais descartes diferenciados, de acordo com cada resíduo, como os contaminantes, os perfurocortantes e os comuns.

“Todos são nocivos ao meio ambiente se forem descartados de forma irregular. Precisam ser tratados como lixo hospitalar, sendo incinerados ou indo para aterros sanitários licenciados, no caso dos resíduos comuns. Atenção a esse processo é fundamental devido a potenciais riscos à saúde dos profissionais e clientes, além de riscos ao meio ambiente em geral.”

Foto: dejopak

Fernanda comenta que no seu estúdio são priorizados materiais de aço que possam ser autoclaváveis (para esterilização), a fim de diminuir o uso de plástico, e relata a forma de descarte obedecendo as normas sanitárias. Os materiais que entram em contato com fluidos e sangue dos clientes, por exemplo, são descartados em lixo hospitalar, que é recolhido pela prefeitura e  incinerado. As agulhas também são separadas em uma caixa própria para materiais perfurocortantes.

Ela destaca que outros lixos do nosso dia a dia também precisam dessa atenção. “Jogamos absorventes em lixo normal, mas na verdade todo lixo de banheiro é lixo especial e deve ser descartado em sacolas brancas. Isso é também para a proteção de quem recolhe o lixo e do próprio meio ambiente”, conclui.

Veganismo

No último ano, um estudo da Universidade de Oxford analisou os altos níveis de gases criados pela indústria da carne e de laticínios e apontou que o veganismo pode reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 73%. Ainda de acordo com a pesquisa, “a carne, a aquicultura, os ovos e os laticínios usam 83% de áreas agrícolas do mundo”.

“Uma dieta vegana é provavelmente a melhor maneira de reduzir seu impacto no planeta Terra, não apenas com os gases do efeito estufa, mas acidificação global, eutrofização, uso da terra e uso da água. É muito mais efetivo do que cortar seus vôos ou comprar um carro elétrico”, disse Joseph Poore, que liderou o estudo.

revista vegetarianos

A Organização das Nações Unidas também apontou que a indústria da carne é responsável pelo consumo de 70% da água disponível e que, se esse consumo pudesse ser reduzido em 10%, seria possível abastecer o dobro da população mundial.

A bióloga marinha, Thaís Garcia, enfatiza a importância desse movimento para o planeta e para as vidas no mar. “Há muitas espécies quase extintas no mar, que continua cheio de resíduos, principalmente plásticos. Não é só para a alimentação mais sustentável que os veganos contribuem, mas também para o consumo consciente de plástico, alumínio e produtos não recicláveis. O veganismo é um dos estilos de vida mais saudáveis e limpos que existem.”

A tatuadora Fernanda Guedes comenta que ser contra a exploração animal e proteger o meio ambiente são lutas conjuntas e explica como se dá o impacto nesse processo de consumo.

“Para criar um animal para ser explorado, gasta-se, resumidamente, água, grãos e espaço. Essa água e espaço poderiam ser utilizados para plantar mais grãos e, assim, destinar mais comida vegetal à população. Para produzir 1 kg de carne, que alimenta duas pessoas, são necessários 20 kg de grãos, que alimentariam 40 pessoas. Isso não apenas na alimentação, já que esses animais que vão para o prato da população também são usados em muitas partes da indústria”.

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